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terça-feira, 5 de abril de 2016

Branca Fantasma

Está frio.
Os seus braços não envolvem o meu corpo;
Sua alma não esquenta o meu ego;
Sua voz não chega em meus ouvidos...

Adeus K7 com canções românticas!
E, plaft!
Ruído do objeto batido no chão,
Trabalho nervoso
É pô-lo no lixo;
Trabalho penoso
É tirar da memória.

No alto brilha a lua,
As pernas andam sem direção...

Procuro os mesmos eucaliptos,
As mesmas frestas das folhas,
Para me recordar, Branca
Das nossas noites de inverno.
E foram tantas!... Tantas...

Os laços, amassos, abraços,
Odores, calores de inverno...
Quanta coisa me vem à mente.

Mas aqui está frio,
Como que queimando por causa do gelo.
(Aqui) é mais profundo do que o pélago,
Mais complexo do que o estereótipo,
Invisível ao olho nu...
Fri-o!

Frio... chega dói!
Uma dor lancinante,
Já que os seus braços
Não abraçam minhas costas,
Já que a sua alma está gélida
E toda a fantasmagórica cena:

Frio climático,
Abraços cálidos,
Beijos ávidos,
Seres românticos,
Poucas roupas...
Tudo... Mas tudo é ideal.

Cairo Pereira

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Trauma

Eu já vaguei pela noite
Vendo as estrelas distantes,
Sonhando com meu amor

Que vivia noutra terra.
Batia aquela saudade,
Começo de enfermidade
E, sozinho pranteei,
Porque não era mais rei
E tinha perdido a guerra.
Eu sentia uma paz mórbida
Caminhando pela margem
De um rego fétido, imundo,
Mas eu via tantas flores.
Engolia a seco sempre,
Olhava para as estrelas,
Observando o Firmamento,
Ouvindo os grilos cantando,
Sentindo me apunhalando
Com uma lança, a Saudade.
Oh, que cena triste, triste!...
Perco-me nas reticências...
E, por que, meu coração
Trazes a dor para mim?
Aos passos lentos furtava
A alva arte da melodia
Que entrava nos meus ouvidos.
Periferia, pobreza,
Desemprego, desalento,
Desdém da dona fulana,
Que em barzinhos com amantes,
Sugando a alma dos coitados
Co'o mesmo truque barato
Que usara comigo um dia,
Nem se lembrou dos meus beijos...
Mas eu caminhava só.
Meu pensamento era um:
Ela e eu juntos pra sempre.
Tolo, tolo, tolo, tolo, tolo!...
Perco-me nas reticências!
Uma afirmação veraz
Que forçou-me a pensar tanto;
Pensamento que me fez
Embalsamar aquele homem
No pregresso mais remoto,
Escondido a sete chaves.
Esqueci de ser romântico.
Para que buquê de flores
Para a próxima vadia?
Por que vou acreditar
No rir cheio de ironia?
E por que vou me prender
Como fizera outro dia?
Para sofrer de agonia?
Sentir a dor da saudade?
Suspirar na solidão,
Eu, as estrelas e a lua?
Não! Não desta dor maldita!
Sentir os gozos de Empíreo,
Vê-la sorrir de contente,
Realizar fantasias,
Correr de noite na rua
Como dois adolescentes...
E vê-la dizer-me "adeus",
Como se eu fosse uma roupa
Suja ou que o tempo estragou.
Para que tudo isso agora?
Eu já vaguei pela noite.

29/12/2014 15h43

terça-feira, 27 de maio de 2014

Enternecimento

Aquilo que me faz banhar os olhos,
cachoeira contínua, noturnal...
É a saudade que tenho por espólios
de um amor que se foi por bacanal.

Machucando demais meu coração,
senti-me solitário nesta pena,
sem ninguém, solitário... A escuridão
tomou-me pela mão e fez a cena.

A mensagem passada pelos olhos
a minh' alma sedenta mesmo conta:
ferrugens, frio, ferros e ferrolhos
e um dedo acusador que tanto aponta.

Poderia mostrar minhas virtudes
co' os joelhos no chão, ó minha vida!
Mas as tuas ações são muito rudes
e é a minh' alma que fica comovida.

Eu não sei como tiro esses abrolhos!...
O inefável, formosa é no invisível!
Como sei que tu és tão insensível...
Já sabes o que faz banhar meus olhos...

27/05/2014 00h34

sábado, 14 de julho de 2012

Golias

Vejo à frente montanhas tão altivas!
Desanimo em meu lânguido compasso...
Chora meu coração sem esperança
de ter só para si um novo regaço.

Perde-se o sonho cândido no espaço
levado para o fim do firmamento
e, sozinho, padeço dolorido,
magoado, ferido em sentimento.

Um doer que não passa com o tempo
sorrateiro, silente, em todo o dia...
Que vara noite e noites num pungir,
lacerante pungir, louca agonia

que, desapercebida só me cria
um complexo recôndito no ser
e minha alma estrebucha solitária,
procurando a alegria no viver.

Quem olha o meu sorriso não quer crer
que lá no fundo tenho em mim guardado
o feral desespero de agonia,
o rancor que me deixa lacerado...

E, quando tenho um único anjo alado
me despeço sem ter u'a alternativa.
Que deste abismo escuro sinto tanto,
vendo à frente montanhas tão altivas!


00h43 19/05/2012

terça-feira, 1 de maio de 2012

Morimbundo


A tristeza me pega de novo,
porque sinto o pungir verdadeiro
que me deixa sozinho, sem sorte,
sem carinhos, amor, companheiro...

Quando eu tinha os afagos de outrora,
a ilusão que sonhei porque quis
escapar desta minha plangência
que me quer moribundo, infeliz...

Eu vivi os momentos mais belos;
eu vivi os momentos mais ledos
e sonhei um porvir sorridente
que escapou por ali, dos meus dedos.

A esperança se foi tão veloz
para o abismo do Mundo Sem Fim:
e eu fiquei sem o chão que pisava,
pranteando e dizendo "ai de mim!"

A miúda que teve os meus lábios,
o meu corpo com sofreguidão,
a paixão que aqui dentro escondia
a razão de eu ter um coração...

Escarrou sobre mim vis palavras
e cuspiu nos meus bons sentimentos,
dando um riso faceiro e maroto
que me fez ter estremecimentos.

Quanta culpa jogou em meu rosto!
(fui o bode jogado ao deserto),¹
Com a culpa que em mim eu não tinha,
mas que fui condenado de certo.

Hoje anelo que as trevas me cerquem
pra lembrar que feliz fui num dia,
que a miúda me dava o aconchego
e o fanal para a minha poesia.

Hoje anelo que as trevas me cerquem
para que eu pense mais nesse povo,
no flagelo que causo a mim mesmo,
e a tristeza me pega de novo.


NOTA: antigamente o povo de Israel sacrificava cordeiro para ser perdoado por Deus de seus pecados. Eles pegavam um bode e soltava no deserto para morrer de sede e fome. O bode significava o pecado.

12/03/2012