quarta-feira, 2 de maio de 2012

Arma


Iguais a facas afiadas
são tuas palavras cortantes,
laceram o meu coração.

Amputas a minha alma
com o teu egocentrismo
que não deixa espaço para o amor;
e o perdão passa distante
como um mero viajante
errante,
trafegando a depressão.

Calado,
fecho os meus olhos
e, silente parto:
parto ao meio meu sentimento
sofrendo dor de parto
sem retrucar,
inofensivo tal qual pombo
ante a multidão.

Que a idade me mostrou,
justa ciência do Tempo,
que as palavras têm
o poder da Vida e da Morte.

31/03/2012 1h12

terça-feira, 1 de maio de 2012

Morimbundo


A tristeza me pega de novo,
porque sinto o pungir verdadeiro
que me deixa sozinho, sem sorte,
sem carinhos, amor, companheiro...

Quando eu tinha os afagos de outrora,
a ilusão que sonhei porque quis
escapar desta minha plangência
que me quer moribundo, infeliz...

Eu vivi os momentos mais belos;
eu vivi os momentos mais ledos
e sonhei um porvir sorridente
que escapou por ali, dos meus dedos.

A esperança se foi tão veloz
para o abismo do Mundo Sem Fim:
e eu fiquei sem o chão que pisava,
pranteando e dizendo "ai de mim!"

A miúda que teve os meus lábios,
o meu corpo com sofreguidão,
a paixão que aqui dentro escondia
a razão de eu ter um coração...

Escarrou sobre mim vis palavras
e cuspiu nos meus bons sentimentos,
dando um riso faceiro e maroto
que me fez ter estremecimentos.

Quanta culpa jogou em meu rosto!
(fui o bode jogado ao deserto),¹
Com a culpa que em mim eu não tinha,
mas que fui condenado de certo.

Hoje anelo que as trevas me cerquem
pra lembrar que feliz fui num dia,
que a miúda me dava o aconchego
e o fanal para a minha poesia.

Hoje anelo que as trevas me cerquem
para que eu pense mais nesse povo,
no flagelo que causo a mim mesmo,
e a tristeza me pega de novo.


NOTA: antigamente o povo de Israel sacrificava cordeiro para ser perdoado por Deus de seus pecados. Eles pegavam um bode e soltava no deserto para morrer de sede e fome. O bode significava o pecado.

12/03/2012