segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

FLORES

Onde de estás, ó flor aberta,

Rósea, de ideal olor?

Por acaso estás desperta

A desejar um amor?


Flor, que eu fico meditando,

Enquanto escorres teu líquido,

Ora muito, e quando em quando,

Um mais fino, porém lívido.


Que primor trazes à fenda

Que não sabemos — pimenta?

Ou nos seria uma prenda

Gotejante e suculenta?!


Ao beijar teu lábio quente

E vê-la estremecer ávida,

Desejando que a serpente

Adentre sôfrega e cálida...


Oh, flor que nunca plantei,

Mas que brotou tão singela,

De repente fez-me rei,

Na balbúrdia da aquarela.


Faminta pelo inefável,

Indelével oceano

Que vaga tão maleável,

Para seguir o teu plano!


E no fundo tens calor,

O aconchego do valente,

Teus afagos com fervor

A amansar o ser potente.


Formas róseas, saborosas,

De prazer sublime e edênico,

Nas volúpias mais gostosas

E no gemido mais cênico.


Constelações em que mil luzes

São acesas num só átimo,

Desconfigurando cruzes,

Pesadas como pão ázimo.


Assim sonham dorminhocos 

Com o pecado inaudito,

Com as flores do Marrocos

E país que virou mito.


Rechonchudas de capo

E até mesmo as linguarudas,

Revelam o seu shampoo,

Como se fossem miúdas.


És a deusa do delírio 

E de todo encantamento,

Porque levas ao empíreo

E também ao sofrimento!


Mênfis Silva

sábado, 21 de abril de 2018

O Frango Assado


Nosso momento financeiros não estava o dos melhores. Para falar a verdade, não querendo ser um murmurador, estava péssimo: eu não tinha um emprego fixo e minha esposa também não. Pagávamos aluguel e não tínhamos familiares ou amigos por perto que pudesse ou quisesse nos ajudar. Víamos que estávamos sós. Quem nunca se sentiu só quando o mar está revolto? Diria que somente as crianças que são inocentes dos problemas que lhes rodeiam.
Minha esposa e eu estávamos perturbados pela falta de dinheiro. Conhecedor da palavra, eu entendia perfeitamente o que Salomão queria dizer em Eclesiastes 10.19 com: "Para rir se fazem banquetes, e o vinho produz alegria, e por tudo o dinheiro responde". Nós não podíamos fazer festa, beber vinho ou receber resposta de algo bom desta vida terrena, como a promoção de uma viagem, porque não tínhamos dinheiro.
Naqueles dias minha esposa estava sentindo algumas necessidades intensas de mulher, como ir ao shopping, comer em algum fast food  comigo ou com algum amigo; que fosse de São Paulo ou que fosse algum dos conhecidos que nos acostumamos a chamar de amigos que moravam em Sumaré, interior de São Paulo. O clima ajudava muito, por ser mais quente do que a capital paulistana. Açaí seria uma boa, mas e o dinheiro? Quando ouvia suas lamúrias me abatia demais já que sou o provedor. Jamais ela iria entender este meu sofrer interno, dificilmente demonstrado, porque quando a nossa filha falecera há pouco tempo atrás eu me fizera de forte e não demonstrara fraqueza para uma mãe desesperada naquele enterro que estivéramos sós. Por que demonstraria agora?
Acostumados ir à igreja ouvir a Palavra de Deus e louvar o seu santo nome para nos fortalecer espiritualmente, naquele domingo não foi diferente. Minha esposa estava triste. Nosso almoço não foi um dos melhores banquetes da nossa vida, e quando chegássemos em casa após o término do culto, teríamos apenas arroz e feijão para comer, pela misericórdia de Deus. Quem não iria se abater com tal situação? Coisa normal de ser humano. De domingo, pela manhã, o pastor vendia frango assado na igreja para ajudar no custeio da manutenção do templo. Havia sobrado dois frangos assados e ele os ofereceu para os membros da igreja com um desconto de 10 reais.
- Irmãos, sobrou dois frangos. Estamos fazendo uma promoção. Apenas 15 reais.
Eu não vi minha esposa quando o pastor levantou os dois frangos em suas mãos para mostrar à igreja, como também não senti o desejo do coração dela. Mas, consigo mesmo, ela anelou assaz comê-lo.
- Por que você não compra um? Uma irmã que era próxima e tinha intimidade perguntou para minha esposa.
- Eu não tenho 15 reais. Respondeu categoricamente.
- Marca. Depois você paga, ué! Ela deu uma rápida solução.
- Eu não! Não tenho dinheiro. Aí quando chegar o dia de pagar como farei? Vou ter que pagar de qualquer jeito.
O culto terminou. Como de costume saímos cumprimentando todos os irmãos. Eu me separei, nesse momento, da minha esposa e fui sentido ao púlpito cumprimentar o pessoal que estava ali. Vinha em minha direção o advogado juntamente com a sua mãe, uma senhora de pouca estatura, mas tão simpática que eu tive que me curvar um pouco para cumprimentá-la.
- A paz do Senhor Jesus Cristo. Eu disse.
- Amém. - Respondeu-me. Quando deu uns dois ou três passos do lado oposto, ela se virou e me chamou. - Irmão?!
- Oi.
- Você quer esse frango? Ela me perguntou, ofertando-me um nobre sorriso terno. Eu fiquei sem saber o que dizer.
- Por quê? Foi o que consegui dizer.
- É que eu comprei costelinha e joelho de porco. Tem muita comida em casa e somos só meu filho e eu. Comprei este frango para ajudar a igreja.
Eu ainda não sabia o que dizer. Estava num misto de incredulidade e choque ao esmo tempo, por estar presenciando uma atitude de caridade para com minha pessoa de modo que eu não poderia abraçar a senhora para lhe agradecer, e disse:
- Espera um pouco. Vou chamar a minha esposa.
Nesse momento levantei minha mão o máximo que pude para chamar minha digníssima e fiz sinal para que ela viesse, já que o frango estava em minha outra mão. Cheguei a ver o sorriso desconfiado dela, que se virou para a mesma irmã que tinha dito para que ela comprasse o frango e falou discretamente:
- Não acredito que meu marido comprou o frango fiado!
Minha esposa vinha se aproximando toda desconfiada. Eu mantinha um sorriso terno no rosto assim como o advogado e a sua mãe, enquanto minha mulher não entendia o porquê daquela felicidade.
- Viiida, - como eu a chamo - a irmã nos abençoou com um frango. Agradeça por nós, por favor.
- Obrigada irmã! Minha esposa exclamou e já abraçou e começou a chorar, emocionada. Eu não entendi o porquê do choro, que era de alegria.
Quando chegamos em casa, minha esposa me contou:
- Quando fui ao toalete a máquina de frango estava lá no fundo, bem perto, sabe. Aquele cheiro de frango assado invadiu meu ser e eu senti um desejo tão grande de comê-lo. Aí quando o pastor anunciou que tinha sobrado aquele desejo voltou à tona com mais força. Nunca senti tanta vontade  de comer um frango dessa maneira em minha vida. E quando a irmã veio e me ofereceu, ela disse: "- Eu tinha sentido de dar o frango para você". Só pode ser Deus, mô! Deus ouviu o pedido do meu coração desesperado.
Eu não tinha muito o que dizer e nem consegui compreender aquela bênção no momento, mas via a emoção da minha esposa tanto em seus olhos, como em suas palavras. Não tínhamos mistura nenhuma em casa. Porém naquela mesma noite a minha sogra e sobrinho da minha esposa jantou conosco, e ceiamos juntos. Aquele frango durou uma semana e a nossa bênção alcançou mais duas pessoas. Daí eu lhe pergunto: Quem conhece os pensamentos  senão Deus?
Juntos agradecemos a Deus pela bênção recebida, como um dos dez leprosos que voltou para agradecer e nos lembramos sempre daquele dia, porque quando os leões estiverem nos cercando, querendo nos devorar, Deus sempre enviará seus anjos para nos proteger; quando sentirmos fome, Ele enviará seu anjo para nos alimentar, como fez com o profeta Elias... desde que estejamos no centro da sua vontade. E tem gente que só agradece quando recebe a chave de um carro ou uma casa...

21/04/2018 14h19

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Trova Sobre Cachaça

Se me der uma cachaça
tem que ser pinga da boa
que me faz sentir o massa,
que alegra toda pessoa.

Cairo Pereira

terça-feira, 5 de abril de 2016

Branca Fantasma

Está frio.
Os seus braços não envolvem o meu corpo;
Sua alma não esquenta o meu ego;
Sua voz não chega em meus ouvidos...

Adeus K7 com canções românticas!
E, plaft!
Ruído do objeto batido no chão,
Trabalho nervoso
É pô-lo no lixo;
Trabalho penoso
É tirar da memória.

No alto brilha a lua,
As pernas andam sem direção...

Procuro os mesmos eucaliptos,
As mesmas frestas das folhas,
Para me recordar, Branca
Das nossas noites de inverno.
E foram tantas!... Tantas...

Os laços, amassos, abraços,
Odores, calores de inverno...
Quanta coisa me vem à mente.

Mas aqui está frio,
Como que queimando por causa do gelo.
(Aqui) é mais profundo do que o pélago,
Mais complexo do que o estereótipo,
Invisível ao olho nu...
Fri-o!

Frio... chega dói!
Uma dor lancinante,
Já que os seus braços
Não abraçam minhas costas,
Já que a sua alma está gélida
E toda a fantasmagórica cena:

Frio climático,
Abraços cálidos,
Beijos ávidos,
Seres românticos,
Poucas roupas...
Tudo... Mas tudo é ideal.

Cairo Pereira

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Trova 1

Essa sombra pouco esconde
seu olhar tão penetrante;
seu olhar que vaga... aonde?
Deve ser na dor de amante.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Galope do Jugo, Julgo e Dogmas


A moça bonita beija a outra menina
E o macho se esfrega no pau de outro macho...
Parece que o homem do diabo é capacho
E o adúltero julga ser erro essa sina;
Porque o homem vê a prostituta na esquina,
Achando-se o santo dá a grana pra amar,
Depois com seu bico empinado pra o ar
Despreza o mendigo que lhe é semelhante,
Julgando-se certo em caminho brilhante
Que leva ao buraco mais fundo do mar.

Eu fico buscando no mundo gigante
Ventura, candura, o amor de verdade...
Não jugo que dão por um dogma ou maldade,
Por puro desprezo de uma alma ofegante
Que quer, que deseja ser sempre operante
Na pura malícia, e o veneno a esporrar
No rosto de quem tá perdido, sem lar...
Talvez se ele olhasse no furo do umbigo
Veria que o espera o mais duro castigo
Que leva ao buraco mais fundo do mar.

O julgo parece que vem do Inimigo
E o tolo coloca e repassa pra o povo,
Dizendo ser cem, mas não passa de um ovo
Comido com gosto lá fora do abrigo...
Se o tolo vier tirar uma comigo
Eu jogo as verdades que tem que escutar,
Nem deixo esse cego no ouvido a falar,
Porque muito sei que isso é falta de amor,
Sem ele o coitado verá o Malfeitor
Que leva ao buraco mais fundo do mar.

Cairo Pereira

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Trovas do dia 20 de Maio de 2015

I
 
O meu peito não comporta
o tamanho da saudade
que o tritura, após a porta
que guarda uma Imensidade.
 
II
 
Creio que a trova é importante
pra falar em poucas linhas
tudo o que sente um amante,
sem ter tantas ladainhas.
 
III
 
Voa pássaro, bem alto,
voa, mas olha pra mim;
sem o seu canto de arauto
juro que será o meu fim!
 
IV
 
Quando eu chego na Estação
de Ferraz de Vasconcelos,
choro com tanta emoção,
porque perco os meus anelos.
 
V
 
Este espaço, ninguém sabe,
desde o início à despedida,
dentro de um nome só cabe:
nós conhecemos por Vida.
 
VI
 
Palavra misteriosa
é a Saudade, que confunde
entre a triste, entre gostosa
neste nosso mapa mundi.
 
VII
 
Minha sogra é da molesta,
acho que é filha do cão!
Tudo que fala não presta,
inda arrasta quarteirão.

terça-feira, 17 de março de 2015

Parabéns!

Para Diogo Queiroz

Os meus parabéns são sinceros, Diogo!
Desejo pra ti muita paz, harmonia,
saúde, churrasco, cerveja alegria,
dinheiro, xaninha - e que venha com fogo,
amor e paixão que te peçam com rogo
o teu coração, e que possas, sim dar...
Um trampo que possa o teu ego elevar,
o rock firmeza, também mil améns...
Meu truta, desejo pra ti, parabéns!
Cantando o galope na beira do mar.

Desejo que o porco não caia de novo
e faça vexame pra sua torcida;
meu velho num 'guenta, mas fecha-se à vida,
nem diz que levou u'a porrada no ovo;
porém, meu amigo, ao dizer me comovo...
Que ao ver as porquinhas que temos que amar,
seus glúteos formosos podemos fitar:
nem quero dizer das gostosas peitolas,
atiçam meus sensos até os das bolas,
cantado o galope na beira do mar.

Desejo que tua cultura evolua,
que pintes, despintes com cores o mundo,
que leves ventura até mesmo pra o imundo,
que chora sozinho, pedindo pra lua
lhe dar menos chifres; que o povo da rua
te veja – um artista – que sabe pintar
o triste, o contente e que sabe brincar,
que cada ano passe com muita alegria,
que os anos te tragam mais sabedoria,
cantando o galope na beira do mar.

O meu desabafo vem cheio de amor,
porque amo demais ter a tua amizade
e, vamos dizer, cá, com sinceridade,
galinha que é preta merece o fedor
de gols, de derrotas, de botas... pra dor
no lombo corcunda pra nos alegrar.
Só quero, Diogo, fazer-te lembrar:
das brejas que juntos tomamos felizes,
que juntos curamos fatais cicatrizes,
cantando o galope na beira do mar.

Então, neste dia eu desejo que esqueças
das dívidas, lutas, amores perdidos,
dos chefes malditos e tão corrompidos,
que pelo o poder perdem suas cabeças,
das dores sentidas, amigo, obedeças,
e corra sorrindo só para abraçar
a tua coroa e qualquer familiar
e diga: - Mamãe, obrigado por tudo!
Eu sou desenhista – por ti – sou sortudo!
Cantando o galope na beira do mar.

17/03/2015 14h18

Talvez a Esperança...

Às vezes, na vida, passamos sufocos,
Perdemos as contas das humilhações,
As contas - milhares - no lombo, vergões,
As tapas, porradas, no rosto mil socos,
Desdém, desamor, os descasos sem trocos,
Das vezes que o tudo não é salutar...
São tantas lições, nem podemos falar
Das coisas injustas de vis roubadores
E nós nos calamos sentindo os horrores,
Cantando o galope na beira do mar.

Não temos sequer o direito das dores,
Das lágrimas tristes, sozinhos à noite,
Porque nos consome a injustiça do açoite,
Então, não contamos a amigos, senhores,
Senhoras sabidas que têm seus valores,
Porque eles também necessitam chorar.
Aí nós pensamos só em naufragar.
Talvez a esperança nos puxe pra cima...
Sei lá de onde vem a coragem e a estima,
Cantado o galope na beira do mar.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Trauma

Eu já vaguei pela noite
Vendo as estrelas distantes,
Sonhando com meu amor

Que vivia noutra terra.
Batia aquela saudade,
Começo de enfermidade
E, sozinho pranteei,
Porque não era mais rei
E tinha perdido a guerra.
Eu sentia uma paz mórbida
Caminhando pela margem
De um rego fétido, imundo,
Mas eu via tantas flores.
Engolia a seco sempre,
Olhava para as estrelas,
Observando o Firmamento,
Ouvindo os grilos cantando,
Sentindo me apunhalando
Com uma lança, a Saudade.
Oh, que cena triste, triste!...
Perco-me nas reticências...
E, por que, meu coração
Trazes a dor para mim?
Aos passos lentos furtava
A alva arte da melodia
Que entrava nos meus ouvidos.
Periferia, pobreza,
Desemprego, desalento,
Desdém da dona fulana,
Que em barzinhos com amantes,
Sugando a alma dos coitados
Co'o mesmo truque barato
Que usara comigo um dia,
Nem se lembrou dos meus beijos...
Mas eu caminhava só.
Meu pensamento era um:
Ela e eu juntos pra sempre.
Tolo, tolo, tolo, tolo, tolo!...
Perco-me nas reticências!
Uma afirmação veraz
Que forçou-me a pensar tanto;
Pensamento que me fez
Embalsamar aquele homem
No pregresso mais remoto,
Escondido a sete chaves.
Esqueci de ser romântico.
Para que buquê de flores
Para a próxima vadia?
Por que vou acreditar
No rir cheio de ironia?
E por que vou me prender
Como fizera outro dia?
Para sofrer de agonia?
Sentir a dor da saudade?
Suspirar na solidão,
Eu, as estrelas e a lua?
Não! Não desta dor maldita!
Sentir os gozos de Empíreo,
Vê-la sorrir de contente,
Realizar fantasias,
Correr de noite na rua
Como dois adolescentes...
E vê-la dizer-me "adeus",
Como se eu fosse uma roupa
Suja ou que o tempo estragou.
Para que tudo isso agora?
Eu já vaguei pela noite.

29/12/2014 15h43

sábado, 22 de novembro de 2014

Degraus

Quantos lances de degraus?...
Para que tantos degraus?...
Senhor Tempo mata mesmo!
E a certeza é tão incerta
Quanto o palmo logo à frente.
Mas subimos os degraus...
Com a esperança de quê?
E descemos os degraus
Num pungir soturno e grave,
Almejando ser puxados
Para o topo dos degraus.
Na inverdade tem verdade
E o convexo é provisório,
Como o lance de degrau
Que ficou lá no passado.
A chuva molha os degraus...
E será chuva de lágrimas?
Mas as lágrimas também
Têm suas complexidades:
Ora triste de agonia;
Ora triste de saudade;
Ora cândida alegria;
Ora pura caridade;
Ora torpe de maldade;
Ora símbolo de dor;
Ora fúnebre rancor...
Nos degraus da Imensidade.

11/11/2014 16h48

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Mundo de Gisele

A Gisele se prendeu
Em seu mundo por vontade,
Onde não há primavera,
Nem do sol a claridade;

Não há canto, caridade,
Carinho, companheirismo,
Compromisso cativante,
Quem quisera - consumismo.

O seu mundo é diferente:
Habita uma só pessoa
Numa gaiola fechada,
Mas pererecando à toa.

Liberta-me, por favor!
Esperneia o coração,
Desejando um companheiro,
Um amor, mas com paixão.

Reencontrar o perdido
Florido, cheio de sol,
Com passarinhos cantando
Na manhã com arrebol.

"Se eu pudesse, conseguisse
Viver, e por mim deixasse
De ser sempre, sempre vice
E revesse a minha face...

"Se para o pregresso olhasse
Sem o medo de sofrer;
De meu mundo, com certeza,
Eu veria o amanhecer.

"Mas, porém, eu tenho medo
De sentir algo medonho,
Algo que não quer dizer:
Se parece com um sonho."

E os fantasmas do passado
Visitam constantemente
A mulher que é caridosa,
Que deseja uma semente;

Que se esconde com receio
De sofrer por despedida;
Que se fecha na redoma
Larga, grande e tão comprida;

Que deseja um mundo novo
Com sorriso e passarinho,
Com jardim e lindas flores
Espalhadas no caminho...

Um mundo inteiro na mente,
No coração sentimentos...
São torvelhinhos, faróis...
São os seus lábios sedentos.

Tanto que a alma de Gisele
Na cama, só, se angustia,
Perguntando-se confusa:
A letícia vem num dia?

06/11/2014 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Contumácia

Dê-me motivo para ver teu riso
Na florescência bela de criança.
Que estripulia trazes nesta andança
Do tempo louco que levou meu siso?

Tua alegria já não mais preciso,
Pois ela traz a mim desesperança,
Pode causar em mim a tal vingança
No bem maior chamado de Narciso¹.

Desapareço neste mundo findo
Na alegação de quem não quer sofrer
Porque pereço, ó meu filhinho lindo!

O teu rostinho só faz reviver
O meu pregresso ledo que vem vindo
Em quem te fez para me ver morrer!



NOTA: Narciso, cangaceiro no Estado da Bahia que se converteu ao cristianismo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ela

Ela tem os olhos belos;
Tem o rosto de uma anjinha,
 É mais linda que rainha...
 Só por ela nutro anelos!
São tão lindos seus cabelos,
O seu corpo é um violão,
Desperta minha paixão,
Sua mão é delicada...
Eita! Que mulé danada!...
Mexe com meu coração! 

Seu perfil é de donzela,
Seu nariz tão perfeitinho,
Como é lindo o seu pezinho,
Nunca vi uma Cinderela
Me afastar da vil procela
Que me leva à perdição;
Que cintura de pilão...
E que pernas torneadas...
Eita! Que mulé danada!...
Mexe com meu coração!

Eu não sei se estou perdido
Ou se já me encontrei nela...
Oh, florzinha na gamela
Não me deixa confundido.
Quero ser por ti querido
Pega, então, na minha mão,
Diga que não é ilusão,
Diga, pois, que é minha amada.
Eita! Que mulé danada!...
Mexe com meu coração!

Quando fala em meu ouvido
Com a sua voz que é doce
Eu já penso: Deus que trouxe.
Isso deixa comovido.
Aqui dentro é um alarido,
É tamanha combustão,
Ela preenche todo o vão,
Pois me encanta como fada.
Eita! Que mulé danada!...
Mexe com meu coração!

Seu encanto é divinal
E me causa frenesi,
Foi na mente que perdi
Todo o meu potencial
De poeta de sarau
Quando eu vi na escuridão
A Divina, vindo, então,
E o meu peito em disparada...
Eita! Que mulé danada!...
Mexe com meu coração!

Posso ser o teu escravo,
Teu poeta, teu amor,
Companheiro de valor
Mesmo não sendo um batavo...
Ainda tento, ainda escavo
O teu peito com razão
De querer ver o botão
Nascer nele, ó minha amada!
Eita! Que mulé danada!...
Mexe com meu coração!


28/07/2014 14h44

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A Fotografia Que Não Foi Tirada

Entre a antiguidade e o feio não há muita distância.
A Antiguidade surge como história,
O feio como subjetivo,
Porque fotografias monocromáticas são lindas,
Verdadeiras obras de arte para mim.

E lá estava um pezinho de uma árvore qualquer do outro lado da Avenida,
Talvez ninguém tenha olhado para ele,
Como também não olham para mim.

Enquanto, solitário entre gente,
Procurando a definição da minha enfermidade,
Abstrato do abstrato no recôndito da alma,
Pela janela do vagão do trem,
Onde pessoas conectadas com milhões de outras pessoas,
Num fingimento ou arremedo de relacionamento,
Procuravam a distração moderna para o atrito de corpos,
Olhos no olhos...
Eu, como o subversivo cão que fareja,
Via de longe a planta morta,
Que me parecia tão viva e cheia de sentimentos.

Fotografei-a de ângulos diferentes:
Plano americano,
Picado,
Contrapicado,
Plano-detalhe...
Tudo exatamente, como num treino mental.

Em meu ver, que era do lado de dentro da janela,
Pedia por misericórdia a pobre da plantinha:
- Fotografa-me. Eterniza-me.
Quero uma foto monocromática para que fique de recordação.

Extremamente sensível ao pedido da defunta, chorei;
Chorei incruento perante os usuários
Conectados em mundos diferentes,
Porque naquele átimo não pude ajudá-la.

26/06/2014 15h01

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Fragmento

Espargir meus sentimentos,
Enxugar toda a minha alma
E voar mesmo sem calma
No infinito da poesia...
Derramar os meus lamentos,
Lamúrias loucas, mazelas
Com as artes, formas belas,
Com o abstrato da magia...

Parece até insanidade,
Superficialidade,
Tola falta de verdade
O canto do passarinho.
Mas quem esteve no ninho
Vendo a ferida incruenta,
Sentindo o ardor da pimenta?
Foi o vate tão sozinho.

Queria pular,
Sair e voar,
Talvez não ter ar,
Pra sempre fugir!...
O meu desespero
Tem tosco compasso,
Não sei o que faço!
Talvez sucumbir.

Adeus meus amores passados,
Adeus meus amores febris,
Paixões que fizeram de mim
Pior do que o vil Querubim...
Anelo ter flores de anis.

Eu não sou mentiroso a tal ponto!
Sei que voo sem ter as aletas
Mais formosas do mais ledo conto.
Ah, meus versos são como os cometas!...

14/07/2014 3h13